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Exílio

5 de set. de 2012

Era um jovem lutador, mas não rebelde. Obedecia a todas as regras – ao menos às que convinham. Fazia tudo o que uma pessoa normal fazia: estudava, trabalhava, dormia e agia como um outro qualquer. Nas noites de sexta saía com os amigos. Tinha uma namorada. Tinha pais, irmãos, e até um cachorro chamado Ted.

Era normal – em partes. Mas não se sentia como ele mesmo. Achava que agia como uma máquina. Sempre os mesmos movimentos, a mesma sequência decorada. Estava cansado da vida. Decidiu se exilar.



Comprou uma passagem, foi direto à Índia. Ouviu dizer que lá os espíritos eram calmos e serenos. Banhou-se nas águas – sujas – do rio. Meditou, aprendeu mantras, tornou-se um homem voltado para o mundo espiritual.



Mas não parou por aí. Fingiu um estudo social qualquer e conseguiu apoio de faculdades importantes. Dinheiro não era problema mais, então seguiu para China, Rússia, Japão, Austrália... Cada lugar com um conhecimento a mais para lhe oferecer, um novo aprendizado.

Perdeu o contato com todos, e hoje só sabem dele por meio dos e-mails mandados à faculdade (sempre pedindo mais dinheiro). Dizem que se instalou na Europa e hoje mora com uma inglesa e o filho, à custa do dinheiro do tal estudo.



Por: Layla Silva



5

Com Você, Sem Você

11 de ago. de 2012


Ele caminha apressado. Passos largos. Quase corre. Só não corre porque este seria um sinal de fraqueza (em sua opinião). E ninguém mais além dele precisa saber que é isso que ele sente nesse momento. Tenta esquecer a cena que acabou de se passar... No carro com a namorada, aquelas duras palavras de término. “For you I was a flame, love is a losing game”. Não consegue se lembrar direito do que ela disse... As vozes das duas se confundiam e se misturavam, entornando um mistura cítrica e doce, uma fusão improvável.
Por que tudo terminou? “You know I didn't mean, what I just said, but my god woke up on the wrong side of his bed, and it just don't matter now”. Sim, não, talvez. Tudo parecia tão bem. “I've traveled for miles around, seems like everybody wanna put me down.” É sempre assim. Todas as vezes. Por que, por quê??

Não tem mais nada a pedir. Ah não, tem sim. “Dear God the only thing I ask of you is, to hold her when I'm not around, when I'm much too far away”.
Seguindo pela chuva, ele respira fundo e tenta se transportar para outros dias, outros tempos. Esvazia a mente e enche o peito. Respira fundo. Repete as palavras incessantemente como se fossem um mantra. “Well, whatever, nevermind”. Como se fossem mudar alguma coisa.
Neste momento ele não tem certeza de muita coisa. Aliás, ele só sabe de uma coisa. “Such a lonely day, shouldn't exist, it's a day that I'll never miss.”
Imagem extraída de:
http://hahaha-naotemgraca.blogspot.com.br

Texto feito ouvindo as seguintes músicas: 
  • I Need You – The Beatles
  • Love Is a Losing Game - Amy Winehouse
  • Littly by Little - Oasis
  • Blues Man - B. B. King
  • Smells Like Teen Spirit - Nirvana
  • Dear God - Avegend Sevenfold
  • Lonely Day - System of a Down

Por: Layla Silva
11

É Tarde

6 de ago. de 2012

É tarde. Aliás, sempre parece ser tarde para ele. TV ligada, luz acesa, música tocando no celular. A casa transpira energia em pleno início de madrugada. Não tem sono. Aliás, há muito tempo não tem. Só consegue dormir quando se dopa de remédios, ou quando fuma aquele baseado. Não faz diferença, tudo é droga, tudo faz mal.
Sente fome. Muita fome. Mas tem preguiça. Esse é seu grande mal. Nunca se anima o suficiente para conquistar suas vontades e realizar seus desejos. Tem preguiça. Preguiça das pessoas, preguiça do mundo, preguiça da vida. A barriga ronca tão alto que a qualquer momento os vizinhos podem chamar a polícia por descumprimento da lei do silêncio. Pega o telefone e disca para o tele-entrega. Um sanduíche com refrigerante deve resolver.
Aproveita que o programa foi para o intervalo e vai ao banheiro. Aproveita e escova os dentes. Aproveita e veste o pijama. Meio que hipnotizado, se deita na cama. Não sabe bem o que faz, apenas faz. Como uma sequencia pré-decorada, ele se aninha e fecha os olhos.
Pensa nos amores, no tempo de escola que há muito tempo se foi, e pensa na família. Em tudo que deixou de viver por medo e preguiça. Aperta os olhos bem forte e promete que amanhã fará tudo diferente, e que quando acordar irá realmente viver.
Em meio a tantas promessas e sonhos, ele dorme. Quando acordar não se lembrará de nada. Sentirá apenas aquele mesmo vazio que aperta seu peito em todas as manhãs.
E enquanto isso, uma moto buzina freneticamente em frente à casa. TV ligada, luz acesa, música tocando no celular. A casa transpira energia, mas o morador está muito longe dali, perdido em seu sono, dominado pelo cansaço, e inspirado por desejos que dormem tranquilos.


Por: Layla Silva

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Epitáfio

6 de jul. de 2012


Nova tag por aqui, onde tentarei criar alguns contos, que por enquanto serão mínimos...


Aqui jaz um coração.
Este coração, como qualquer outro, teve derrotas, vitórias, alegrias, tristezas e todos os sentimentos que existem. Mas acima de tudo, ele sofreu. Sofreu muito.
Não entendia o porquê disso. Revoltou-se depois de uma terrível decepção. Aquele era seu fim. O fim do coração.
Resolveu mudar radicalmente. De coração passou a ser cérebro. Frio, sem emoções e racional. Era fácil ser cérebro – não doía. Só precisava manter o restante do corpo em ordem. Porém, nesta nova forma, lembrava-se dos tempos como coração, um órgão pulsante e vital. Não conseguia sentir saudade. Cérebros não sentem.
O máximo que conseguiu foi se arrepender da mudança. Só. Agora estava fadado a viver para sempre como alguém sem sentimentos. A solidão dominava a mente.
Porém, o que ele não sabia era que a mudança é passível de reversão. Até para ele. Só precisava amar alguém, amar infinitamente e incondicionalmente alguém. Porque somente o amor consegue mudar até mesmo o mais cruel ser do mundo.
Mas enquanto isso deveria esperar, esperar até que seu epitáfio fosse alterado.
Aqui jazia um coração.



Por: Layla Silva
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